O Pará está no centro de uma oportunidade que pode redesenhar a economia mineral brasileira nas próximas décadas. Um estudo inédito elaborado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Federal de Juiz de Fora, com apoio da U.S. Chamber of Commerce e de empresas do setor, estima que o Brasil poderá adicionar R$ 192,1 bilhões ao Produto Interno Bruto e criar 750 mil novos empregos até 2050 se conseguir transformar sua gigantesca riqueza mineral em produtos industrializados.
E o Pará aparece como um dos principais protagonistas desse movimento. O Estado concentra a maior parcela dos investimentos previstos para a expansão das cadeias de minerais críticos e estratégicos entre 2026 e 2030. Do total de US$ 20,5 bilhões planejados para cinco cadeias minerais, o Pará aparece como foco principal dos investimentos em cobre, níquel e bauxita, além de continuar como uma das grandes fronteiras minerais do País.
A Província Mineral de Carajás, em particular, reúne depósitos de importância mundial de ferro e cobre e coloca o Estado no centro da corrida por minerais considerados essenciais para a transição energética.
Do minério à tecnologia
É justamente aí que está o problema apontado pelo estudo. O Brasil possui reservas abundantes, mas continua concentrando sua atividade nos primeiros estágios da cadeia: extração e beneficiamento. O minério sai do País e boa parte do valor agregado fica no exterior, onde os mesmos recursos são transformados em baterias, componentes eletrônicos, motores, veículos elétricos e equipamentos para geração de energia.
Os pesquisadores compararam dois cenários entre 2026 e 2050. No primeiro, o Brasil amplia a produção mineral, mas mantém o modelo predominantemente exportador de minério bruto. O resultado seria um acréscimo de R$ 128,7 bilhões ao PIB e 304 mil empregos.
No segundo, há maior participação de investimento estrangeiro, expansão do processamento doméstico e utilização dos minerais pela indústria brasileira. Nesse caso, o impacto sobe para R$ 192,1 bilhões no PIB e 750 mil empregos.
A diferença – 446 mil postos de trabalho – é o chamado efeito de adensamento da cadeia produtiva. Para um Estado como o Pará, historicamente marcado pela exportação de commodities minerais, a discussão é particularmente relevante.
Rota dos investimentos
Segundo o levantamento utilizado no estudo, os investimentos projetados para 2026–2030 incluem US$ 8,62 bilhões em cobre, concentrados principalmente no Pará e na Bahia; US$ 4,74 bilhões em níquel, com destaque para Pará e Goiás; e outros US$ 1,22 bilhão destinados à expansão da cadeia da bauxita, integralmente relacionada ao Pará entre os polos indicados.
Entre as empresas envolvidas nas diferentes cadeias estão Vale, Vale Base Metals, Ero Copper, Lundin Mining, BHP, MRN, Alcoa, Norsk Hydro e CBA. O desafio, portanto, não é simplesmente abrir novas minas ou ampliar a produção. É fazer com que uma parcela maior da riqueza permaneça no País – e, principalmente, nos territórios produtores.
O estudo mostra que os efeitos da industrialização mineral ultrapassariam os Estados mineradores. Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo e Paraná, por exemplo, aparecem entre os maiores beneficiários do cenário de maior processamento, justamente porque concentram segmentos industriais capazes de transformar os minerais em bens de maior valor.
A conta para o Pará
O risco para o Estado é conhecido: continuar fornecendo matéria-prima enquanto outras regiões e países capturam a parte mais lucrativa da cadeia.
O Brasil é líder mundial em reservas de nióbio, possui a segunda maior reserva mundial de grafite e está entre os países com maiores reservas de níquel e terras raras. As reservas de cobre, níquel, grafite e lítio também superam, em larga escala, a demanda projetada para a transição energética nacional até 2050. Mas a verticalização ainda é baixa. Em 2023, apenas 5% do lítio extraído no Brasil foi processado internamente. No níquel, o produto refinado representou menos de 40% da produção.
O resultado é uma equação conhecida: o Brasil exporta o recurso e importa parte do produto de maior valor agregado fabricado a partir dele.
Oportunidade Carajás
Para o Pará, a mudança de modelo poderia significar mais do que aumento da arrecadação mineral. Poderia abrir espaço para uma cadeia industrial associada à mineração, criando fornecedores, serviços especializados, tecnologia, pesquisa e empregos qualificados.
O estudo aponta cinco frentes para que esse cenário se concretize: aprovação de uma política nacional para minerais críticos e estratégicos; ampliação do financiamento; atração de investimentos externos; estímulo ao processamento doméstico; e melhoria do ambiente regulatório.
O BNDES e a Finep já selecionaram 56 projetos relacionados ao setor, somando R$ 45,8 bilhões em investimentos. O desafio agora é transformar projetos e reservas em cadeias produtivas.
A demanda mundial tende a crescer com a transição energética. Veículos elétricos utilizam muito mais minerais do que automóveis convencionais, enquanto equipamentos de energia renovável também exigem grandes volumes de insumos minerais.
Para o Pará, a questão é especialmente sensível. Carajás já provou que sabe produzir minério em escala mundial. O próximo capítulo é saber quanto dessa riqueza poderá ser transformado em indústria, tecnologia, emprego e renda antes de atravessar o oceano.
O estudo coloca o preço dessa escolha em números: entre o modelo exportador e o de maior industrialização existe uma diferença potencial de R$ 63,4 bilhões no PIB brasileiro e 446 mil empregos até 2050. Para um Estado que está sentado sobre parte dessa riqueza, a discussão deixou de ser apenas mineral. É uma discussão sobre qual lugar o Pará ocupará na economia da transição energética.
Fonte: Coluna Olavo Dutra

