O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou nesta terça-feira (14) o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passa de 30% para 32% (E32). A medida entra em vigor por um período inicial de 180 dias, prorrogável por mais 180, e faz parte da estratégia do governo federal para reduzir a dependência da importação de combustíveis fósseis, ampliar o uso de biocombustíveis e diminuir os impactos da volatilidade dos preços internacionais do petróleo.
Segundo estimativas do governo e do setor sucroenergético, a mudança poderá reduzir em cerca de 800 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma em nota que o aumento da mistura reforça a segurança energética do país e que o setor tem capacidade para atender à demanda adicional de aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol anidro por ano.
Apesar dos benefícios apontados para o abastecimento e para a redução das emissões de carbono, especialistas alertam que a alteração pode provocar mudanças no consumo de combustível, principalmente porque o etanol possui menor poder calorífico do que a gasolina. Enquanto a gasolina pura apresenta cerca de 10.400 kcal/kg, o etanol tem aproximadamente 6.300 kcal/kg, o que significa menor geração de energia por volume.
A engenheira mecânica Arielly Assunção explica que esse fator pode ser percebido pelos motoristas no dia a dia. Ela explica que, como o etanol possui um poder calorífico – que é a quantidade de energia que um combustível consegue liberar quando é queimado – menor do que a gasolina pura, ele fornece menos energia por volume. “Na prática, haverá impactos diretos sobre motores, mangueiras e velas. Os veículos que não possuem injeção eletrônica também devem ter maior atenção devido à dificuldade de ajuste da mistura ar-combustível”, afirma.
Segundo ela, a maioria dos veículos mais modernos, especialmente os modelos flex e muitos híbridos importados recentemente, já foi desenvolvida para trabalhar com teores mais elevados de etanol.
“Os carros que vêm da China, por exemplo, já chegam preparados para que essa mistura funcione adequadamente. Não deve haver prejuízo mecânico para esses veículos. Já os mais antigos podem apresentar alguma repercussão, o que exige mais atenção dos consumidores, mas nada que impeça a utilização”, explica Arielly.
Embora o governo espere que a maior participação do etanol ajude a conter o preço da gasolina, Arielly avalia que a economia percebida pelo consumidor pode ser limitada.
“Haverá um gasto maior para o consumidor, pois dificilmente haverá uma economia significativa. A redução do valor do litro deve ser sutil e, como a mistura tende a render um pouco menos, na prática pode ocorrer aumento no consumo”, diz a especialista.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) também já havia defendido a realização de novos estudos antes da adoção da medida. Segundo a entidade, veículos importados e modelos mais antigos, desenvolvidos para trabalhar com menores concentrações de etanol, podem enfrentar desafios relacionados à compatibilidade de componentes internos.
Entre os consumidores, a mudança divide opiniões. A autônoma Cláudia Moraes afirma que a principal preocupação é com possíveis danos aos veículos.
“Essas medidas dão um certo medo em nós consumidores. Se der problema, o prejuízo é de quem? Mas não tem para onde correr. Agora é torcer para que pelo menos a gente veja uma redução no custo desse combustível o quanto antes”, diz.
Para quem depende do carro como fonte de renda, qualquer alteração no consumo faz diferença. O motorista de aplicativo Pedro Siqueira, que percorre mais de 200 quilômetros por dia, espera que a mudança realmente represente economia.
“Só espero que isso não traga problemas para o motor nem faça o carro gastar mais, porque aí o que a gente economiza no posto acaba gastando na manutenção”, diz o autônomo.
A Unica defende que estudos realizados no âmbito do programa Combustível do Futuro, incluindo testes conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, demonstram a viabilidade do uso da mistura E32 sem impactos relevantes no desempenho, no consumo ou na dirigibilidade da maior parte dos veículos, inclusive motocicletas não flex.
Para Arielly Assunção, a ampliação do uso de biocombustíveis acompanha uma tendência mundial de transição energética, mas ainda exige adaptação dos consumidores.
“Existe uma consciência de que o etanol é um combustível de matriz energética limpa e essa é uma tendência para reduzir o uso de combustíveis fósseis. Porém, ainda há desafios relacionados aos sistemas internos de alguns veículos e também à adaptação dos consumidores em relação ao rendimento do combustível”, completou.
Fonte; O Liberal

